Waldemar Borges da Silva, um baiano que decidiu se aventurar em terras capixabas e em Linhares de balconista de loja de varejos, veio a se tornar um dos grandes produtores de cacau. Waldemar é um típico exemplo de investidor que soube crescer nos negócios em tempo hábil.
Natural de Mundo Novo (na região do Sertão), Borges nasceu em 03 de junho de 1933 e já aos 17 anos, seguiu a tendência de seus conterrâneos que migravam para os grandes centros ao atingirem a maioridade.
A convite do amigo Augusto Oliveira, Waldemar aceitou o desafio, não de encarar a cidade de São Paulo, mas de vir para a pacata Linhares no ano de 1951. Naquela época, a cidade se limitava à Rua da Conceição, como ele mesmo lembra. “Sou da época que Linhares possuía uma única rua, e a energia elétrica era desligada todos os dias às 20h30”, diverte-se.
Funcionário das Casas Progresso e Oliveira
Por aqui Waldemar permaneceu por dois anos como empregado da Casa Progresso, de propriedade de João Gama. Destemido e “cheio de vontade” de ter suas próprias terras, Waldemar resolveu aceitar a proposta de “desbravar” o estado do Mato Grosso em 1953. “Na época, os interessados ganhavam terras para cultivo e pecuária. No entanto, o terreno que me foi concedido era muito distante de Cuiabá. Pelo menos seis dias de viagem. Insisti por um ano e meio, mas decidi que o melhor seria retornar à Linhares”, lembra-se.
Na viagem de volta ao Estado, uma parada na cidade de São Paulo garantiu a subsistência do futuro cacauícultor por um bom tempo. Waldemar fez uma compra de roupas e relata que vendeu as confecções “como água”. “Ganhei muito dinheiro, mas a vontade de trabalhar no campo era maior. Foi aí que decidi ir para o Paraná, mas novamente surge a figura do meu amigo Augusto Oliveira na história da minha vida. Ele me convenceu a permanecer em Linhares e ainda me arrumou um emprego na Casa Oliveira”, detalha.
Ocupando a função de balconista, Borges permaneceu por 11 anos na loja que vendia de tudo um pouco. Neste ínterim, ele recebeu a proposta de vender seguros de vida, pela empresa Sulamérica. A rotina de Waldemar dividiu-se então no comércio durante o dia e nas vendas noturnas. Será que valeu a pena? Ele mesmo declara. “O que entrava da Sulamérica foi para a poupança, até que juntei o suficiente para comprar meus primeiros 18 alqueires de terra e plantar 18 mil pés de cacau em1958’, conta.
O político Waldemar
Nesta época, Waldemar já estava casado e em 1959 foi eleito vereador pela primeira vez. O início de uma carreira de sucesso e de uma vida em família não foi nada fácil para o cacauicultor. ‘Minhas primeiras terras foram adquiridas em Bananal do Sul. Eram 27 quilômetros de distancia de Linhares, e eu fazia o percurso de bicicleta. Era uma luta que enfrentava todos os finais de semana, já que de segunda a sexta-feira, permanecia na condição de balconista’, lembra.
Nasce a Casa Borges
Em 1965, quando exercia seu segundo mandato como vereador, surgiu uma nova oportunidade na carreira de Waldemar. Ele saltou de empregado para empresário: comprou uma filial da Casa Oliveira e abriu a Casa Borges. ‘o lucro do comércio era a garantia da subsistência da minha família, já que investia todo lucro da cacauicultura em terras’, conta.
Waldemar foi vereador por mais um mandato e logo em seguida se candidatou a prefeito. Seu principal rival, Samuel Batista Cruz, ganhou a eleição com uma diferença de 361 votos. Apesar de não ter sido agraciado com a função de chefe do executivo, Waldemar deixou e continua deixando um legado de grandes contribuições para Linhares.
Ele é um dos criadores do Sindicato Rural Patronal e ajudou a construir a sede, no Centro da cidade, também fundou a Cooperatival Agropecuária Mista de Linhares – CAMIL, ajudou a fundar o Hospital Rio Doce, Guararema Clube, Banco Sicoob, foi um dos responsáveis pela drenagem da bacia Suruaca, entre outros importantes feitos.
Waldemar Borges é um dos fundadores do Sindicato Rural de Linhares
Corria o ano de 1967 e Linhares vivia a pujança do setor cacaueiro e desfrutava do potencial de outras atividades agropecuárias. Visando a organização e representatividade dos produtores rurais do município, o então deputado estadual Emir de Macedo Gomes, importante liderança local e também agropecuarista, tem a iniciativa de criar uma entidade que pudesse ser a casa do produtor.
Emir conversa com o amigo Waldemar Borges da Silva e pede a ele que organize um sindicato da classe. Ao lado de outros importantes produtores, como Maurício Neves Fernandes e José Geraldo Pinto, o Sindicato Rural de Linhares foi criado no dia 01 de dezembro de 1967, sendo alugada uma área no centro da cidade, onde hoje funciona o Posto Cidade. Waldemar se tornaria o primeiro presidente daquela instituição.
Em 1968, o então prefeito de Linhares, Senatilho Perim, doou o terreno onde hoje é a sede da entidade. Com a área, o deputado Emir conseguiu articular com a direção da Comissão Executiva do plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) os recursos para construção do novo prédio do Sindicato Rural de Linhares.
“A grande contribuição de produtores de cacau de Linhares e a liderança de Emir possibilitaram a liberação de recursos para construir a sede própria do Sindicato. Foram os recursos dos produtores de cacau, que contribuíam com a Ceplac com parte da produção, que ajudaram na construção do prédio do Sindicato”, destaca Waldemar.
Uma década depois, surgia a parceria com o Governo Federal que possibilitou o atendimento médico e odontológico gratuito, além de ofertar medicamentos, para produtores rurais associados e seus funcionários. A verba, proveniente do governo, através do INPS, imposto da época, era enviada para pagamento dos profissionais da saúde que atendiam no Sindicato.
“Foi uma importante conquista do Sindicato e para sociedade linharense. Eu voltava de Vitória várias vezes com carro cheio de medicamento, fornecido por essa parceria, para o Sindicato”, lembra Juca Gama, segundo presidente da entidade.
Tradição e Representatividade
Praticamente meio século de sua criação, o Sindicato Rural de Linhares vive uma nova fase. Com a tradição e representatividade da entidade, adquirida ao longo de sua história, o Sindicato inova em suas ações, acompanhando a tendência da agricultura moderna, e reforça o compromisso com o produtor rural linharense.
Exposições Agropecuárias e Rainha do Cacau
Entusiasmados, os produtores rurais começaram a realizar eventos para promover a força do segmento agropecuário local. A primeira exposição agropecuária foi realizada na Camil, a extinta Cooperativa Agropecuária Mista de Linhares. A segunda festa foi nas proximidades da Lagoa do Meio.
Outra vez, Senatilho Perim contribuiria para o fortalecimento da instituição doando a área do atual Parque de Exposições de Linhares para o Sindicato. A partir daí, as exposições começaram a ser realizadas no novo espaço no período da festa de aniversário da cidade, com exposições de animais, vaquejadas, leilões, entre outras atrações. Na época, os membros do sindicato cortavam capim na estrada para levar para os animais se alimentarem no Parque durante a exposição.

