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Polivalente I – crônica de uma memória afetiva

Rede Diario Es por Rede Diario Es
4 de maio de 2017
em Edições Online
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Polivalente I – crônica de uma memória afetiva
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18157250 1304034026352822 3795145625223341231 nPor * Pablo Castro – Poeta, Professor de Filosofia,  tricolor carioca e ativista das causas sociais.

Sob o sol ardente e o calor inquietante, na bicicleta velha do velho avô, eu e minha irmã cruzávamos a BR 101 rumo à escola. Era uma distância razoável entre a periferia que morávamos e o bairro emergente que se localizava o colégio. Ir à escola além de ser um desafio era uma brincadeira. Brincadeira que rendeu, mais ou menos, sete anos de nossas vidas.

O percurso era perigoso e isso se tornava ainda mais acentuado com: a bicicleta que vivia sem freios; o fluxo de carros e a falta de ciclovia. Mas, lá íamos nós. O Polivalente I era uma das maiores escolas públicas da região com os vários tipos de alunos e professores.

Lá havia a inesquecível professora de Língua Portuguesa, Zézé, que carinhosamente chamava os alunos de ‘docinho de coco’. Era uma mulher sensível, apaixonante. Ah, foi com ela que aprendi a anotar diversas coisas na mão para não esquecer. Ela fazia isso, lembro bem. Professores, funcionários e a direção da escola eram excelentes. Falei da Zézé, mas teve a Sirlâne, Sidnéia, Ossília, Marta, Arlene, Euzete, Tevaldo, João Manuel, Soninha,Ana Paula, Larissa, Dayse, Bina, Marlene, Márcia, Lurdinha e outros tantos que incansavelmente trabalhavam e acreditavam na gente.

No Poli, quase coloquei fogo em tudo numa amostra cultural sobre a origem dos nômades; declamei o poema “O navio negreiro” de Castro Alves; fiz papel de Saci; discuti melhorias para uma possível quadra de esportes; briguei por liderança de turma; tocava o terror nos teatros. Não sozinho, pois havia uma turma unida, problemática e atentada. Claro que não podia ser diferente porque todos nós éramos o que tínhamos de ser naquele momento da vida. Nós gostávamos do Poli, gostávamos dos professores, gostávamos da liberdade e do carinho que recebíamos, e até das broncas.

A escola e os professores eram afetuosos ou talvez nós fossemos carentes demais. Mas, isso pouco importa. O que interessa é olhar para trás e perceber o quão de afetivo há num espaço escolar, que pelo respeito, carinho e liberdade a escola também foi capaz de deixar registrado algo na formação afetiva de seus alunos.

Poderia falar dos problemas que cercam a escola e a educação, em geral, mas prefiro recordar dos risos, ironias, registros e afetos que fazem parte de nossa dimensão formativa.

O Poli continua lá com seus muitos alunos e profissionais; o sol continua inquietante; a BR permanece insegura e as ciclovias pouco existem, espero que ela – escola – continue afetuosa, eficiente e divertida, porque muitos dos seus ex-alunos seguiram seus rumos, arrumaram suas bagagens, ganharam o mundo levando de recordação esta escola que descrevi.

Até um dia de visita.

Pablo Castro 

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