José Vicente Mendes (*)
O início de governo do segundo mandato do governador Renato Casagrande foi marcado por um fato significativo para a imprensa escrita do Estado: o fim de publicidade governamental. Por determinação da secretária de Estado de Comunicação o governo só passaria a programar mídia em sites, rádios e tv.
E este fato tornou-se ainda mais sério, com o encerramento das atividades dos jornais A Gazeta, Noticia Agora e Metro. Assim, jornais diários da capital só resiste bravamente A Tribuna. Nesses três anos de governo Casagrande, tentamos falar com a secretária Flávia Mignone para tentar persuadi-la a mudar de postura. Tudo em vão. Ela nunca recebeu nenhum dirigente de jornais. A gente insistia e quem nos atendia era o subsecretário, um bom rapaz lá de São Gabriel da Palha, mas limitado em suas ações. E assim ela foi a responsável pelo fechamento de dezenas de jornais do interior do Estado que não conseguiram sobreviver sem a mídia oficial.
Minha tristeza é maior ainda porque Flávia é colatinense, filha do saudoso ex-deputado federal Belmiro Teixeira Pimenta e de dona Arly, conceituada professora que inclusive já foi vereadora. Flávia que nunca trabalhou na imprensa do interior, não tem noção da insanidade cometida. Tivesse ouvido sua mestra e criadora Beth Rodrigues, não teria tomada esta atitude.
Os jornais impressos com medo do que poderia vir, trataram de criar seus próprios sites e garantir “uma perninha” no bolo publicitário do Estado. E covardemente (desculpem os companheiros) todos ficaram de boca fechada. Temos certeza de que o governador Renato Casagrande não tem conhecimento desse fato, mesmo porque ele tem coisas mais importantes para se preocupar. Faltou a gente ir pessoalmente levar o fato até a ele.
Flávia é uma mulher de personalidade forte. Segundo ouço falar, não obedece ordens nem do governador. Pedir ajuda a um deputado ou secretario de Estado e uma tarefa em vão. Ela decide e ponto final.
O ponto de vista dela é discutível. Se fosse correto, a maioria dos jornais impressos teriam morrido pelo Brasil afora com o advento da internet com suas redes sociais. Creio, sinceramente, que a internet até ajudou aos jornais impressos.
No Estado houve a precipitação do grupo A Gazeta, que mal orientado e mal administrado, puseram a pique o diário mais importante e antigo do Estado. Faltou talvez pulso. Em momentos de crise temos que adotar medidas drásticas. Se a tiragem era de 20 mil, baixasse para 5 mil; se o número de páginas era de 60, baixasse para 18; se havia 60 funcionários, fizesse a redução para 20. Mas deixar o jornal acabar foi o cúmulo da incompetência. E em dose dupla já que fecharam também o Noticia Agora. Cheguei a trabalhar alguns meses em A Gazeta (1973), quando funcionava na rua General Osório, próximo ao parque Moscoso. Meu editor de cidade era Elber Suzano. Alí conheci grandes nomes do jornalismo capixaba, entre eles, Marien Calixte e Jackson Lima. Quanto ao fechamento do “Metro”, a gente até aceita, já que os proprietários não são do ramo e quiseram investir demais em algo que tem o retorno lento. São acostumados a ganhar muito dinheiro com construção civil e shopping. Jornal para eles era como dar bala para crianças. Quando viram que não era tão produtivo, se retiraram do mercado. Não tinham compromisso nem com o povo e nem com o leitor.
Mas voltando ao assunto da decisão de dona Flávia, com essa atitude vai entrar para a história. Vai ter seu nome inserido nas páginas daqueles que fracassam e prejudicam os que defendem as pequenas comunidades do interior. A notícia que não tem importância para a grande imprensa é fundamental para a pequena, que conta no dia-a-dia a história das comunidades.
Tempo para consertar esta decisão equivocada talvez não exista mais. Pode ser tarde demais. O desastre está feito. O governador que em seu primeiro mandato tanto apoiou a pequena imprensa deve estar decepcionado com a atitude de sua secretaria, ou as vezes nem tem conhecimento. Dinâmico, espírito democrata e ciente do alto cargo que foi investido, vai tomar conhecimento de tudo isto. Tomara que não seja tarde demais. As eleições vem aí.
(*) Jornalista e Advogado


