Festas juninas aumentam os riscos de acidentes com queimaduras

As queimaduras são lesões causadas por agentes térmicos, químicos ou elétricos, que muitas vezes ocorrem por falta de atenção ou orientações adequadas. Nos meses de junho e julho, período em que acontecem as festas juninas, aumentam os riscos de acidentes com queimaduras em crianças e adultos por causa das fogueiras e da soltura de fogos de artifícios.

Com o intuito de divulgar medidas preventivas e reduzir a incidência desses acidentes, foi sancionada em 2009 no Brasil, a Lei 12.026, definindo o dia 6 de junho como Dia Nacional de Luta contra Queimaduras.

No Espírito Santo, o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória (HINSG), em Vitória, é referência no tratamento de crianças queimadas. O local conta com dois cirurgiões plásticos, um anestesista, fisioterapeutas e uma equipe de enfermagem, que estão à disposição para atender a população.

Em 2018, o HINSG registrou 151 crianças internadas por queimaduras. De janeiro a maio deste ano foram 31 internações pelo mesmo motivo.

Segundo a coordenadora do Serviço de Cirurgia Plástica do HINSG, Rosalie Torrelio, as maiores causas de queimaduras em crianças são líquidos quentes como óleo, água e comida. Mas também há casos de queimaduras com líquidos voláteis como álcool, diesel, gasolina e thinner, além de choques elétricos motivados por brincadeiras como soltar pipa, uso de ferro elétrico e fios desencapados em casa.

Ela ressalta que os pais precisam estar sempre atentos aos pequenos, e que algumas medidas podem ser adotadas para evitar acidentes. “É ideal ter um portão que evite a entrada da criança na cozinha, evitar o uso de toalhas grandes na mesa para não permitir que a criança puxe o café ou algo quente que esteja no local, e as tomadas precisam ter proteção. São ações simples, mas que fazem toda diferença”, disse.

De acordo com o enfermeiro efetivo do CTQ, Vander Ubiratam Glória Veloso, o hospital tem uma modalidade que permite que os pacientes de queimaduras leves, façam um curativo sem anestesia no dia seguinte ao acidente. “Para que esse procedimento seja possível, a lesão necessita ser pequena. Caso não seja viável, a criança ferida é internada no CTQ, realizando o tratamento, diariamente, com anestesia”, explicou.

Veloso destacou ainda, que a maioria dos acidentes ocorre dentro de casa, em momentos de distração dos responsáveis, sendo que as principais vítimas são crianças entre 1 e 5 anos de idade.

O enfermeiro alerta sobre a importância de continuar o tratamento em casa após o paciente receber alta do hospital. “É fundamental para diminuir as chances de cicatrizes na pele e realizar toda orientação médica nesse momento delicado”, afirmou.

Atualmente, a porta de entrada para as crianças com algum tipo de queimadura é o pronto-socorro Drª Milena Gottardi, localizado no Hospital Infantil de Vitória, em Bento Ferreira. Entretanto, se o paciente for do interior, deve procurar algum hospital de urgência e emergência da região, onde será avaliado e transferido.

Rosalie Torrelio orienta que, em caso de queimadura, o responsável pela criança deve lavar a ferida com água corrente e depois tampar com pano limpo e seco. Após esse procedimento, o paciente deve ser encaminhado ao hospital.

 

Número de acidentes que provocam queimaduras ainda é alto

Ainda é grande o número de pessoas que procura atendimento médico por causa de acidentes que provocam queimaduras. Em janeiro desse ano, o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, realizou 740 atendimentos, entre consultas, procedimentos ambulatoriais e cirurgias, uma média de 24 pessoas por dia.

Ao longo desses seis anos de funcionamento do setor, os números chamam atenção. De fevereiro de 2013 – data da abertura do CTQ do Hospital Dr. Jayme – a janeiro de 2019 foram quase 37 mil atendimentos. Desses, cerca de 7 mil foram urgências, com pacientes em estado grave.

Um caso emblemático para o setor foi o da diarista Marciane Pereira dos Santos, de 37 anos, vítima de violência doméstica que teve 40,5% da superfície corporal queimada.

“O perfil dos pacientes internados no CTQ é de mulheres e homens, em quantidades muito parecidas, na faixa etária de 31 a 60 anos, sendo a principal causa os atendimentos a mulheres vítimas de acidentes domésticos e, no caso dos homens, acidentes de trabalho”, destacou o diretor técnico do Hospital Dr. Jayme, Eric Teixeira Gaigher.

Outro caso grave atendido no Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Estadual Dr. Jayme foi o de Vanderlei Ferreira Ramos, de 51 anos, atendido em 2016. Ele trabalhava sob andaimes, a nove metros de altura, na instalação de pastilhas na fachada de um prédio, quando encostou uma régua metálica de construção em fios elétricos. A descarga de alta-tensão fez o soldador desmaiar.

Na ocasião, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionado e conseguiu controlar o fogo que estava no corpo do soldador com soro fisiológico e pano úmido. Vanderlei teve queimaduras de terceiro grau nos braços, na barriga e nas pernas, e passou por diversos procedimentos. “O Vanderlei precisou ficar nove dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e também passou por procedimentos como escarotomia, fasciotomia, debridamento, que é a limpeza dos tecidos desvitalizados, além de enxertia cutânea. O atendimento de urgência salvou a vida desse homem”, relatou o médico Fabrício Regiani.

A demora no atendimento médico especializado e o uso de produtos não adequados por conta própria são fatores que podem causar infecção e prejudicar futuras cirurgias necessárias para a recuperação do paciente, segundo a equipe médica.

Além de provocar cicatrizes permanentes, ou seja, marcas pelo corpo que afetam esteticamente a vítima, as queimaduras podem causar também a perda de mobilidade da parte afetada, ocasionando a necessidade de realização de cirurgias complexas para reparação. “O tratamento adequado pode até evitar que uma cirurgia seja necessária”, reforçou Fabrício Regiani.

O Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, é referência no atendimento às vítimas de queimaduras para todo o Espírito Santo, e disponibiliza sete leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e 10 leitos de enfermaria.

“O CTQ conta com uma equipe experiente e capacitada para atender os diversos casos que dão entrada na instituição. São técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos especialistas em cirurgia plástica, intensivistas e anestesistas, além de fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e psicólogos à disposição dos pacientes”, pontuou o diretor técnico da unidade, Eric Teixeira Gaigher.

 

Dados

Hospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória

– Em 2018, foram internadas 151 crianças com queimaduras. Este ano, esse número era de 31 até o final do mês maio.

– Nos adolescentes a principal causa de queimaduras é com óleo quente.

– 70% a 80% das queimaduras que vitimam crianças acontecem dentro de casa.

 

Hospital Jayme dos Santos Neves

– Em janeiro desse ano, o CTQ do hospital realizou 740 atendimentos, entre consultas, procedimentos ambulatoriais e cirurgias, uma média de 24 pessoas por dia sendo atendidas por conta de queimaduras.

– De fevereiro de 2013, data da abertura do CTQ do Hospital Dr. Jayme, a janeiro de 2019 foram quase 37 mil atendimentos, desses cerca de 7 mil foram urgências, pacientes em estado grave.

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