Escadaria gigante de 2.166 degraus em Alto Liberdade

Construção durou quatro anos executada com suor pelos moradores da Marilândia

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Nilo Tardin

Uma escadaria gigantesca escondida no meio da floresta tida como milagrosa atrai centenas de fiéis todos os anos a Pedra do Cruzeiro, em Marilândia noroeste do Espírito Santo.

São 2.166 degraus contados a dedo que serpenteiam até o pico da imponente montanha de 810 metros de altitude, bem aos pés do calmo vilarejo de Alto Liberdade, a 8 km do centro da cidade colonizada por italianos.

Relatos de moradores que venceram doenças graves atribuídos a proeza de enfrentar a escadaria reforça o mistério dos poderes sobrenaturais do lugar.

A subida a Pedra do Cruzeiro é feita há 84 anos, conta o lavrador Gil Bonna, 53 anos guardião da história religiosa de Alto Liberdade. Ele destaca que o caçador de onças Natal Tozatto achou o caminho em 1932. De lá para cá cinco cruzes já foram fincadas no cume da pedreira pelos devotos incentivados pelos sacerdotes, entre eles o lendário padre José Brasil.

“Duas de madeira foram destruídas por raios. Uma de ferro caiu. Tinha 11 metros de altura em 1952, além de duas de cimento.  A atual mede13m30,” frisou. Gil e seu irmão Antônio, 66 anos ajudaram a construir a escadaria que foi iniciada na década de 1980.

Todos os anos uma missa campal pelas dádivas alcançadas, além de reunir pagadores de promessas para cura de câncer e males da cabeça e do coração.

Cerca de 250 pessoas chegam a participar da romaria na escadaria milagrosa.  A peregrinação de 2016 está marcada para o próximo dia 30 de abril a partir das 7h, avisou Gil Bonna.

Famílias inteiras de agricultores sobem a escadaria para pedir chuva visando aplacar a seca inclemente que castiga há região.
“Subi a primeira vez aos seis anos. Meu pai me levou porque queria encostar a mão nas nuvens”, lembrou Gil. São vários os casos de cura e pedidos atendidos pela Escadaria da Santa Cruz de Alto Liberdade. “Estava desenganado após sofrer um acidente de moto. Fiz promessa de subir. Fui curado”, disse agricultor Adilson Meneghine, 45 anos.

A grandeza da escadaria é uma raridade no mundo, diz o engenheiro Francisco Hermes. Na sua conta o lance de degraus equivale a 1.836 metros em reta, igual a um prédio de 139 andares. “É fruto da fé religiosa de uma época”, acentuou.

Construção de 2,1 mil degraus durou quatro anos

A escada colossal levou quatro anos para ser erguida pelas mãos dos moradores de Alto Liberdade, inclusive mulheres e jovens entre os anos 1983 e 1987 quando ficou pronta.

Sacos de cimento, areia, brita eram carregados nas costas, recorda o pedreiro Dizmo Meneghine, 56 anos.

“A subida da escada começou com pedras soltas sendo encaixadas umas nas outras na trilha escavada a enxadão. Da gruta para cima é que os lances de escada foram melhorados com alvenaria”, comentou.

Cada pedra tem colaboração de alguém da comunidade, revelou o comerciante Aguilar Antônio Lorencini, 55 anos dono das terras da Pedra do Cruzeiro, sempre de portas abertas para os visitantes.  “Tinha oito anos quando subi com meus pais. Parecia  uma escada para o céu”, ressaltou.

De acordo com Gil Bonna, o trabalho era feito sempre nos finais de semana, nos feriados era montado um acampamento. Levar água nas costas era o grande desafio.

“O padre José Brasil tomava conta de tudo, não passava nada sem o seu consentimento. Um dia sem explicação,  uma água brotou da terra. Um poço de água escura foi escavado ajudando a terminar a obra mais rápido. A escadaria milagrosa ficou pronta em 1987 e o cruzeiro inaugurado em 3 de maio de 1989”, disse.

Padre era carregado até topo de padiola

São várias as histórias de participação de homens, mulheres e jovens na construção da escadaria milagrosa da Pedra do Cruzeiro em Marilândia.  Era comum durante os mutirões jovens e mulheres transportar apenas um litro de cimento e areia  para ajudar na construção.

Quem conta é a merendeira Rita Zanganela, 75 anos que chegou a subir com peso de 20 quilos nos braços entre panelas e mantimentos. “Os meninos levam um quilo de material de construção morro acima. Os homens carregavam cimento e areia nos ombros.  Ajudei a fazer a escada cozinhando. A cozinha era montada na gruta, ponto de parada obrigatório para descaso até hoje” , acentuou  dona Rita.

Mesmo velho e doente, o padre José de Souza Brasil não deixou de acompanhar a obra de perto e celebrar as missas até pouco tempo antes de sua morte em 1999. Durante a construção do cruzeiro, o carismático reverendo era suspenso por roldanas até o braço do cruzeiro para conferir o serviço.

Mas fazer o padre chegar ao alto da rocha é outro caso curioso. Gil Bonna revela que o pessoal carregava o sacerdote pela escadaria numa padiola. “A cadeira de lona do padre José Brasil está guardada entre as relíquias que marcaram a construção da escadaria e do cruzeiro”, revela o guardião Gil.

Depoimentos

Cinegrafista Inácio Pedruzzi, 56 anos

Na última terça-feira, 22 o cinegrafista Inácio Pedruzzi, 54 anos deixou as tarefas diárias para pagar a promessa de subir a enorme escadaria. O objetivo era honrar o compromisso espiritual de ver sua mãe dona Néia melhor de saúde e vir morar com ele em Colatina. “Minha já está morando comigo e melhor de saúde. Mas cumpri a jornada para agradecer por muitas outras coisas, inclusive pedir chuva para nossa região”.

Servente Rita Zanganella, 77 anos

Dona Rita Zanganella, aos 75 anos diz que o sacrifício de subir os 2,1  mil degraus da Pedra do Cruzeiro foi recompensado pela fé. “A Santa Cruz me ajudou uma vez. Um dos meus filhos tinha problemas com a bebida. Durante uma das escaladas pedi pelo abandono do vício dele. Fui atendida. Meu filho parou de beber há mais de 15 anos. Agora tenho medo de subir a escadaria devido a idade.

Zélia Alves, 66 anos e Teresinha Bonna, 66 anos

Algo de místico aconteceu nas vidas das lavradoras Zélia Alves e
Teresinha Bonna. Vizinhas de longa data em Alto Liberdade, ambas ficaram com saúde frágil.

Dona Zélia acredita que ficou curada de um câncer de mama. Teresinha revela que saiu do estado de quase-morte graças a energia da escada milagrosa. “Tive aneurisma,

Aguilar Antônio Lorencini, 57 anos

O comerciante Aguilar Antônio Lorencini já subiu ao menos 40 vezes a escada milagrosa seja na busca de paz, rezar e clamar por chuvas.. “Sempre levo meu terço no bolso. Já alcancei graça sim. Este ano vamos subir uma turma grande para rezar pelo clima. A seca devastou as lavouras de café da região. As nascentes secaram. Rios e córregos sumiram”.

Adilson Meneghini, 45 anos

Adilson Mengheini sofreu um grave acidente de moto. Teve o crânio esfacelado na queda. Conta que ficou 15 dias em estado de coma profundo. Desenganado pelos médicos, a corrente de orações e promessas da família de subir a escada milagrosa deram resultados. “Depois de ficar por um fio, voltei a vida. Prometi se melhorasse ia subir a montanha para agradecer. Estou convicto que alcancei um grande milagre”, disse.

Escadas gigantes no mundo

Monte Tianmen na China – Escada de 999 degraus até o cume.
Virginópolis (MG)  São 511 da escadaria que leva a Capela de Nossa Senhora do Patrocínio.
Convento da Penha – Escadaria de 112 degraus

– Nilo Tardin

Site: Gigantes do Mundo

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