‘Isso non ecziste’: relembre os embates de padre Quevedo na TV

 

Oscar González Quevedo Bruzan será velado e enterrado nesta quinta-feira

Padre Quevedo no programa do Jô Soares na TV Globo

Padre Quevedo no programa do Jô Soares na TV Globo – Reprodução

Rio – O corpo de Oscar González Quevedo Bruzan, o Padre Quevedo, será velado e enterrado nesta quinta-feira, em Belo Horizonte. Afastado da mídia desde 2011, ele morreu nesta quarta-feira (9) por complicações cardíacas, na Casa Irmão Luciano Brandão, no bairro Planalto, onde morava desde 2012.

O velório, aberto ao público, está marcado para às 9h, no ginásio da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, onde fica a casa em que morava. O enterro será no Cemitério Bosque da Esperança, no bairro Jaqueline, às 11h.

O padre ficou famoso pelo bordão “isso non ecziste”, ao desmistificar eventos considerados paranormais. Na década de 1970, desmascarou o ilusionista Uri Geller, que dizia entortar talheres com a força da mente.

No ano 2000, Padre Quevedo apresentou o quadro “Caçador de Enigmas” no Fantástico, onde desvendava fenômenos da natureza e expor charlatões.

No programa Globo Repórter, da TV Globo, sobre supostos médiuns em 1991, em que especialistas criticavam nomes como João de Deus e Valdemar Coelho, Quevedo compareceu a uma sessão de “materialização” feita pela médium Ederlazil Munhoz – Reprodução

Isso non ecziste’: relembre os embates de padre Quevedo na TV

Com frases como “fantasmas não existem”, “curandeirismo é exercício ilegal da medicina”, e “a ciência não está nem a favor, nem contra: vamos ver qual é a realidade”, Quevedo por muitas vezes usava um tom de ironia e deboche em suas constatações.

“Há adivinhos que cobram R$ 200 por uma consulta. Se ele é bom mesmo, porque não adivinha a sequência dos números da Mega Sena?”, questionava.

Espírita, ateu e padre

Nem sempre Quevedo foi religioso. Quando criança e durante parte da adolescência, era um católico praticante. Ainda na juventude, tornou-se um espírita convicto para, entre os 26 e 27 anos de idade, tornar-se ateu, afastando-se de qualquer religiosidade.

Na sequência, retornaria para o cristianismo, tornando-se um sacerdote jesuíta, o que lhe faria se tornar conhecido como padre pelo resto de sua vida.

A variação religiosa permitia a Quevedo ter um embasamento maior que a maioria das pessoas na hora dos debates.

Em determinada ocasião na década de 1960, apostou 5 mil cruzeiros com um jornalista que negava que uma frase atribuída por Quevedo a um autor espírita fosse real. A frase estava presente no livro Christiche e Rettifiche, de Ernesto Bolzzano, fazendo com que o padre vencesse o desafio.

Poder Oculto

Ao longo das décadas, padre Quevedo foi uma figura constante na TV brasileira, e ganhou seu primeiro programa, lançado em 5 de agosto de 1970, o Poder Oculto, exibido nas noites de quarta-feira pela TV Cultura.

“Eu não faço milagres. Inri Cristo muito menos”, disse o padre Quevedo no programa Tribuna na TV . – Reprodução

Padre Quevedo, o Caçador de Enigmas

Em 2000, padre Quevedo recebeu um convite para fazer um quadro desmascarando fenômenos supostamente paranormais no Fantástico, chamado Caçador de Enigmas.

“Quero desmascarar truques e exageros: meu trabalho é de esclarecimento. O objetivo é desmistificar essa mentalidade mágica que envolve os fenômenos parapsicológicos”, explicava à época do anúncio da atração.

Quevedo ‘substituiu’ o quadro do ilusionista Mister M, que fazia sucesso nos anos anteriores. Porém, rebatia a possibilidade de ser chamado de “Mister Q”: “Sou o padre Quevedo e não um personagem.”

Na Globo, Quevedo possuía uma cláusula de exclusividade em seu contrato que lhe permitia aparecer em outros programas de TV somente em caso de pagamento de um multa de cerca de R$ 50 mil.

Padre Quevedo confronta ‘lúcifer’

Um episódio marcante de Quevedo no Fantástico foi quando ficou frente a frente a um homem que dizia incorporar o demônio Lúcifer no Rio de Janeiro – Reprodução

Um episódio marcante de Quevedo no Fantástico foi quando ficou frente a frente a um homem que dizia incorporar o demônio Lúcifer no Rio de Janeiro.

Quevedo questiona os motivos de o homem não falar hebraico ou aramaico, e o locutor Cid Moreira atenta ao fato de o suposto diabo usar um português um tanto quanto peculiar.

Em determinado momento, Quevedo desafia o homem a matá-lo – no que não é bem sucedido – nos proporcionando o seguinte diálogo:

“Mate-me! Estou pedindo de joelhos.”

“Tu terás aquilo que tu mereces…”

“Sem dúvidas. Mas mostre seu poder contra mim. Estou pedindo.”

“Não preciso te mostrar.”

“Porque não pode…”

“Posso…”

“Mostre!”

“Posso… Já te falei que você ‘breves’ estará no grande mundo da eternidade.”

“Lógico, sou cardíaco. Algum dia eu morrerei”, conclui o padre, com uma certa dose de ironia.

Paródia no Hermes e Renato

A reportagem rendeu até mesmo uma paródia por parte do programa Hermes e Renato, da MTV, que criou o padre Quemedo, interpretado por Bruno Sutter. Na esquete, ele confronta “o filho do capeta”, personagem de Fausto Fanti.

Padre Quevedo no Globo Repórter

Padre Quevedo também era chamado para outros programas jornalísticos da emissora, como o Globo Repórter.

Em uma edição sobre supostos médiuns produzida em 1991, em que especialistas criticavam nomes como João de Deus e Valdemar Coelho, Quevedo compareceu a uma sessão de “materialização” feita pela médium Ederlazil Munhoz.

A mulher colocava um monte de algodão sobre uma peneira, molhava o material e garantia que objetos como flores de plástico, ossos, cacos de vidro e terra se materializavam em meio ao algodão.

Cético, Quevedo assistia a tudo com feição séria, e, ao fim da reportagem, dava sua versão dos fatos, às vezes, cogitando hipóteses bastante inusitadas.

“O truque aconteceu no momento em que ela ficou aqui de joelhos, tampada pelo algodão e, primeiro levantava as duas mãos. Depois era só a mão direita, e a esquerda estava oculta. Pôde tirar qualquer coisa de entre as pernas, do ânus, qualquer lugar.”

Padre Quevedo X Inri Cristo

Em 2003, Quevedo foi convidado para um debate com Inri Cristo, que alega ser uma reencarnação de Jesus Cristo, no programa Tribuna na TV.

Entre perguntas e acusações por parte da plateia, o ‘alto nível’ da discussão contava também com inserções de uma repórter do lado de fora do estúdio, que entrevistou até mesmo um homem de bicicleta que afirmava ser o próprio Papai Noel.

“Eu não faço milagres. Inri Cristo muito menos”, sacramentava o padre Quevedo.

Os dois se encontraram em outras oportunidades, como no palco do Programa do Ratinho alguns anos depois.

“Te dou 10 mil dólares se dobrar esse dedo”, desafiava Quevedo mostrando o indicador.

“Ratinho, eu não vou mexer no dedo dele porque é um dedo imundo. Sei onde ele anda metendo esse dedo e por esse motivo não vou mexer no dedo dele”, debochou Inri.

“Vocês imaginam Jesus Cristo dizendo essa grosseria?”, questionava o padre à plateia.

Afastamento da TV

Em seus últimos anos de vida, Quevedo reclamava de seu distanciamento aos programas de TV. “Lamento muito ter sido afastado da mídia. Pessoas começaram a dizer que eu insultava outras religiões, mas a verdade é que não encontravam formas de me contestar e isso incomodava. No final, já não me deixavam falar.”

*Com Estadão Conteúdo

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