Jaqueline Moraes: de camelô a vice-governadora do Espírito Santo

“Sou mulher, negra, criada na periferia e conheço a dor da nossa gente. Sou esposa, mãe e avó. E sei exatamente o que fazer para melhorar a vida das pessoas, principalmente as mulheres que trabalham e ganham 40% menos que os homens”

Estado – De vendedora ambulante a vice-governadora eleita no Espírito Santo, Jaqueline Morais poderá ser a primeira mulher a governar o Espírito Santo. Moradora do bairro Operário, periferia de Cariacica, ela tem 43 anos e foi eleita vice de Renato Casagrande, ambos PSB.

Em entrevista concedida ao portal ESHoje, Jaqueline disse que quer ser uma vice atuante. Estudante de Direito, sua trajetória político partidária começou como vereadora de Cariacica, entre 2013 e 2016. Ela foi líder comunitária, por dois mandatos, quando decidiu concorrer, em 2012, sendo a sexta mais votada na cidade.

Vice só assume quando o governador oferece espaço. Como deseja ser uma vice-governadora atuante? Creio que o vice pode ter um papel importante nas interlocuções com os movimentos sociais e na articulação política. Com o governador dando o espaço e reconhecendo nossa capacidade de diálogo, podemos trabalhar junto aos seguimentos em geral, nos três poderes e na sociedade, e fazer a interlocução, que é uma necessidade e as vezes, o governador não consegue absorver.

Caso venha a assumir o governo, mesmo que interinamente, será a 1ª governadora mulher da história do Espírito Santo. Qual é o sentimento ao carregar esse papel? Aumenta o peso da responsabilidade, de fazer bonito e bem feito. Eu sempre trabalhei, nesse intervalo de liderança e vereadora, no debate da participação da mulher e na defesa dos direitos. Inclusive fizemos uma campanha de não ser laranja, combatendo o uso da imagem da mulher nas campanhas eleitorais só para preencher cota, e sempre trabalhei nessa visão do empoderamento. Então vou fazer o meu melhor e inspirar outras mulheres.

A vida pública não é fácil, principalmente para a mulher, que tem até tripla jornada, sendo dona de casa, estudando e trabalhando. Se lançar na vida pública não é uma coisa fácil, então essa responsabilidade me move e me motiva a fazer algo inspirador para as mulheres.

Como você vai administrar sua nova rotina? Vou continuar estudando porque só faltam três períodos para eu terminar. Quando eu tranquei é porque não dava para conciliar com a campanha, que era intensa, mas vou continuar, ainda que eu precise fazer algo à distância. Vou me dedicar a concluir, mas, sobretudo, vou me dedicar muito ao mandato e ao que foi proposto para mim.

Sou uma pessoa muito elétrica e energizada, gosto de trabalhar. Nossa eleição terminou domingo, segunda foi dia de descanso, mas hoje já acordei pensando na agenda. Sou extremamente disciplinada com agenda. E quem se lança à vida pública tem que gostar disso. Tudo precisa estar incluído na agenda. Sou disciplinada, vou colocar tudo de mim e dar o meu melhor.

Além de carregar o papel da mulher no Governo, é negra, pobre e periférica. Como é representar esse papel que é o mesmo de milhões de capixabas? Estou escrevendo uma história. Desde o momento do convite, percebi que estava escrevendo uma história. Tudo traz uma emoção muito grande, uma reponsabilidade e, ao mesmo tempo, uma alegria, porque esta voz muitas vezes não é ecoada. Às vezes, sua imagem e sua aparência não são o comum em certos espaços. Recebo aquele olhar de “ela é vice-governadora?”. Não é o biótipo que as pessoas estão acostumadas. Mas a política está mudando e os agentes públicos são aqueles que estão cada vez mais próximos da população. Vou me esforçar ao máximo pra ser essa voz no governo, dos movimentos sociais e das minorias.

Enquanto tiver espaço, para o que vai lutar como vice? Os movimentos sociais e a bandeira da representatividade feminina, porque trabalhar pelo empoderamento não é só na política, mas em todas as camadas da sociedade. Oferecer as mulheres oportunidades para elas se empoderarem.

O empoderamento começa quando você oferta a mulher estudar, produzir. Quando eu conheci a vida pública, através da liderança comunitária, comecei a me envolver com políticos, e nesse momento eu falei “preciso estudar”. Então fui pro EJA [Educação de Jovens e Adultos], e só quando eu fui vereadora que tive a oportunidade de fazer faculdade.

O Estado vai ter esse olhar e eu tenho o olhar da política pública para as mulheres. Eu vou ter o papel de conversar com os secretários, para dar atenção a esse assunto, que aborda também as mulheres negras. Vou trabalhar nesse diálogo. Foto:Arquivo pessoal.

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